"Quando a gente segue o próprio caminho, o olhar dos outros não importa."
- Karim Nicolau
- há 4 dias
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Atualizado: há 4 dias
Konnichiwa! Annyeonghaseyo!
Preciso desabafar com você: a maior certeza que tive ao ler "Meu Dom Quixote Coreano", de Kim Ho-Yeom, foi a de que não li o Dom Quixote de Cervantes como deveria.
(Se você não conhece o autor, nem leu meu post sobre "A Inconveniente Loja de Conveniência", pode saber mais sobre ele aqui.)

Abusando da honestidade, acho até que meu único contato com esse tesouro espanhol foi através de uma versão infantil, numa dessas leituras obrigatórias de escola. Em minha defesa, devo dizer que naquela época, também li "O Menino do Dedo Verde", de Maurice Druon, e, logo em seguida, minha mãe me levou para assistir à peça. Minha reação ao final foi tão traumática que acabei apagando qualquer outra memória literária.
Mas, bem, voltando à nova obra de Kim Seonsaengnim (Ou mestre Kim), o fato é que a gente termina a história sentindo que sabe tudo de Quixote e, ao mesmo tempo, precisando saber mais!
"O que não pode se resolver com dinheiro tem que ser feito com o coração."
Não sei o que esperava quando li o título. Vi a capa, vi o autor e simplesmente comecei a ler num impulso automático e, uau! Fico até feliz de não ter criado expectativas. Peço até desculpas a quem gostou mais da Duologia "A Inconveniente Loja de Conveniência", mas essa última obra foi como um dardo direto no meu coração!
Para começar, assim como a personagem principal, Jin Sol, também trabalhei em uma locadora no final da adolescência e, embora não tenha tido um mestre para me ensinar sobre a vida, eu certamente tive um clube bem parecido com o La Mancha ao meu redor.
Quando comecei a trabalhar, eu achava que entendia tudo de cinema! Meu avô, além de ter se aventurado como figurante em filmes dos anos 70, era um colecionador voraz da revista Cinemin - um marco dos anos 80 / 90, e eu gostava muito mais de devorar suas páginas do que as da Coleção Colibri que a escola me obrigava a ler todos os anos. Minha mãe, me levava ao cinema religiosamente todas as semanas, nosso ritual sagrado de entretenimento e papo-cabeça. Meu pai, não satisfeito em assistir, se aventurou a produzir e filmar alguns curtas para o Clube de Cinema onde conheceu minha mãe na faculdade.
Eu tinha a certeza de que trazia o cinema no sangue!
Mas, assim como Jin Sol, foi dentro desse clubinho que consegui perceber que tudo que tinha assistido até então tinha um tipo de censura. Ali, descobri filmes de rasgar o coração, de inspirar revolta, de incitar rebeliões! Conheci a guerra, a maldade do coração humano e, do outro lado, a esperança, a luta, a vitória.
Meus dias na Vicius Locadora - uma vivência que pude dividir com a minha irmã, Cassie - com certeza moldaram não apenas os meus gostos, mas minhas escolhas. E pude me identificar demais com aquela que se autodenomina no livro "Jin-Sancho".
Eu não tinha dinheiro para fazer nada das decisões que tomava a cada DVD que levava pra casa. Mas meu maior pagamento era feito em palavras, risadas e às vezes até lágrimas. Um refri em uma mão, um pão com mortadela na outra. O que não faltava na gente, porém, era o coração e ele se derramava em nossas discussões cinematográficas e até nas dicas que dividíamos com nossos clientes fiéis.
"O ser humano não pode viver sem sonhar."
Este pensamento também é algo que senti que partilho com Jin-Sancho.
Jin-Sancho tinha toda a vida planejada na cabeça dela. Ela alcançou a profissão dos sonhos em uma idade em que muitos ainda estão por aí, batendo cabeça com outros profissionais. Quando tudo foi tirado de seus pés, a sensação foi a de que seu mundo havia se acabado. Eu também estive aí.
Mas, graças aos seus Amigos, no mais puro Espanhol, ela conseguiu não só descobrir um novo trabalho, mas, o que considero mais importante, um novo sonho para chamar de seu. A partir do momento em que encuca na ideia de encontrar seu antigo patrão, mestre e inspiração, ela pisa forte no acelerador e corre o mundo atrás desse objetivo.
Confesso que, à medida que ela chegava mais perto de seu objetivo, eu começava a me borrar de medo. Porque, assim, o mundo não é um morango, certo? Tinha que dar algo errado no meio do caminho!
É claro que não vou te contar exatamente o quê, mas, se resolver encarar essa história, me conta se a sensação foi só minha ou se é normal ficar com essa sensação de pânico no fundo do estômago?
"Escritor não é alguém que muda o mundo. É um covarde que se esconde atrás do livro."
Calma, calma! Hold your horses!
Esta frase não representa em nada o meu pensamento, não. Ela foi dita pelo Dom Ahjussi, o Santo Graal do livro, em um de seus momentos menos nobres. Todos nós temos uma hora em que nos sentimos derrotados por nossos próprios sonhos e é fácil entender a dor que nos consome quando a gente fracassa.
Por algumas páginas, senti uma certa decepção com o que imaginei que seria o final do livro. Eu tinha toda a história meio que planejada na minha cabeça, com base nos roteiros seguidos pela maioria dos autores com os quais estou acostumada, mas... É importante entender que, não, as coisas funcionam um pouco diferente por lá.
Se existe algo que me agrada nas histórias asiáticas é que não há uma preocupação absurda em fazer do herói uma pessoa perfeita. E, para Kim Seonsaengnim, um personagem precisa ser, antes de tudo, humano. Eles erram, eles sentem medo, eles seguem em frente.
"Os seres humanos são pontes uns para os outros."
E lá vem Kim Seonsaengnim com outra metáfora de ponte!
Achei incrível que ele voltasse a falar disso! Se posso apontar a maior lição do livro é a de que nenhum de nós é capaz de atravessar nosso caminho no mundo sem se apoiar em alguém.
Pode ser em nossa família, nos amigos mais íntimos, na pessoa que a gente ama, mas, muitas vezes, em pessoas que encontramos enquanto estamos andando. Algumas passam a seguir conosco, outras estão só de passagem. Mas caminhar é o que nos une, é o que nos torna iguais.
Não sei se você vai terminar esse livro como eu, querendo reler Dom Quixote e tentar ligar os pontos entre uma obra e outra. O que sei é que ele foi feito para incomodar, para nos tirar da apatia e nos forçar a sacudir o fundo daquele baú onde escondemos nossos maiores desejos.
Você lembra quais são os seus?
Próxima parada: Jinbôcho, Tóquio!
Pega aí seu passaporte, pega uma mochila e coloca só as roupas de baixo porque, pra onde vamos agora, você vai precisar de muito espaço. Vamos conhecer o maior distrito de sebos e livrarias do Japão; quiçá do mundo!

Juntinho com Takako-chan, vamos nos hospedar na Livraria Morisaki: uma raridade fundada no período Taishô e propriedade do simpático Satoru-san, tio de Takako. Nesta nova aventura, escrita por Satoshi Yagisawa, vamos descobrir tesouros literários, apaixonados por livros e, acima de tudo, segredos que as pessoas escondem no fundo de suas almas.
Prepare-se! Nosso trem parte em breve!
Jya, né? Annyeonghi gaseyo!
Kaká