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"A vida é relacionamento e relacionamento é comunicação"

Konnichiwa! Annyeonghaseyo!


A primeira vez que peguei "A Inconveniente Loja de Conveniência" nas mãos, lembro que voei nele simplesmente pela capa! Acontece que, durante meus estudos no Japão, eram as famosas konbini que possibilitavam minha sobrevivência diária. Era nelas que eu fazia minhas principais refeições - quase todas incrivelmente deliciosas, por sinal - e, assim, podia sempre ter uma economia para sair com os amigos nos finais de semana.


Maaaaaas, quando engrenei no primeiro capítulo, confesso que me assustei um pouco. A narração era de uma senhora idosa? Será que eu ia conseguir me identificar?


Não vou te dar esse spoiler, mas já te adianto que o livro inteiro é de tirar o fôlego. Desde o humor sarcástico e extremamente verdadeiro do Kim Ho-Yeon, até a lembrança de momentos embaraçosos que a narrativa acaba sempre arrancando da nossa cabeça.


Enfim, prometi a vocês uma viagem, então, bora começar?



A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada.

Provavelmente você já ouviu alguma versão dessa frase por aí. Não é exatamente uma ideia 100% original. E, como aparece lá no meio do texto, quando nosso protagonista ainda parece ter tantos obstáculos para superar, você talvez se sinta um tanto incrédulo de sua veracidade.


Mas acredito que nada pode definir tanto o propósito deste livro quanto esta frase.


O livro é sobre a estrada de Dok-go e no quanto o cruzamento desta com outras ruas e caminhos acabam interferindo na felicidade das outras pessoas. Algumas, sequer percebem como suas rotas foram alteradas. Outras, sentem o coração se inundar de gratidão e precisam retribuir de alguma forma a graça que receberam.


Dok-go ou, simplesmente "o homem", um morador de rua sem nome ou passado, parece não ter nada a adicionar a nossa vida. Sujo, esfomeado, com aparência de um urso que acabou de sair das cavernas, confesso que me perguntei algumas vezes se iria mesmo querer seguir na história.


Foi só pelo bom coração da Senhora Yeom que acabei ficando. No começo, com uma espécie de revolta: Como assim essa senhorinha frágil vai ter coragem de colocar um morador de rua grosseiro, sujo e gigante pra administrar a loja dela! E logo vi que não era a única pessoa a me desesperar!


Tudo que acontece ao longo do livro vem para comprovar nossa tese ou jogar tudo isso no chão.


E o curioso é: a gente entende que ninguém é só uma aparência. Ninguém é apenas um erro que cometeu. Todo mundo é feito de muitas camadas e, no final das contas, somos todos humanos.


Uma ponte era um caminho por onde passar, não um lugar de onde pular.

Ao longo de sua estrada, Dok-go vai sendo ajudado. Não apenas pela Senhora Yeom, que o tira das ruas e garante que ele tenha teto, comida e roupas limpas, mas também pelas pessoas com quem vai convivendo ao longo de seu tempo na Loja de Conveniência Always.


O curioso, ao meu ver, é que sua mera presença leva todos a seu redor a se movimentarem. Começa pela própria Senhora Yeom, que podia ter simplesmente alimentado o pobre homem e seguido em frente. Depois, sua chegada provoca uma reação em sua jovem colega de trabalho, Shi-hyeon, xodó da chefe, cuja vida parecia estagnada. Logo depois, suas atitudes começam a tirar a crítica Sra. Seon-suk, cuja imagem de perfeição que trazia por fora, escondia a agonia de um drama familiar. Seja por medo, curiosidade, inveja ou qualquer outro motivo pessoal, ninguém consegue passar por ele impassível.


Para mim, a citação destacada acima, foi o momento em que senti todas as peças do livro se encaixarem.


Nossa vida é cheia de pontes. Pontes são movimentadas, os carros atravessam com pressa, ninguém presta muito atenção no outro. De lá, a água parece tão longe e, se um objeto cai, é como se encontrasse o cimento.


Ainda assim, há momentos em que não queremos cruzar a ponte. Em que a travessia parece pesada demais, dolorosa demais, longa demais. Queremos encerrar o processo, fugir da luta e, nessas horas, a água lá embaixo parece chamar a gente como o canto da sereia.


Não vou aqui contar como o livro termina, nem como cada personagem lidou com suas próprias pontes, o que posso dizer é que ele me ajudou a recomeçar. E é assim que gosto dos meus livros: com momentos de risos e lágrimas, sim, mas sempre com uma lição escondida na manga.


Tenho fé que esse nosso trem vai atravessar o rio! E, do outro lado da ponte, haverá terra firme. E outras pontes virão.


Sobre o Autor - Kim Ho-Yeon


Aos 52 anos, Kim Ho-Yeon já conquistou um sucesso relâmpago dentro e fora da Coreia do Sul. Ele inclusive participou da nossa Bienal do Livro aqui no Rio, ano passado! Imagina meu coração quando descobri o que estava perdendo?



"A Inconveniente Loja de Conveniência" foi seu primeiro livro e já começou estreando com mais de 1,5 milhão de cópias em sua terra Natal e milhares aqui no Brasil. Kim Ho-Yeon reconhece que a recente alavancada nas vendas de livros coreanos é fruto do fenômeno Hallyu, a febre coreana que invadiu o mundo, mas observa que a qualidade sempre existiu.


Do lado de cá do livro, agradeço demais ao fenômeno que me permitiu encontrar histórias tão lindas e tocantes que, muito provavelmente, jamais teria encontrado por conta própria.


O ponto que mais me encantou em seu trabalho, é a linguagem simples, como se estivéssemos lendo a mente dos personagens. Já experimentei essa identificação antes, com autoras como Sophie Kinsella e Marian Keys, mas foi a primeira vez que encontrei um discurso tão leve em um texto masculino. Para a revista Veja, ele disse: "Acredito que, tornando o texto um pouco mais fácil e direto, os leitores conseguem entrar na fase de imersão com muito mais facilidade."


E funcionou!



Próximo livro!


Continuando nossa incursão pela mente de Kim Ho-Yeon, vamos agora para Daejon, uma cidade pequena, ao centro da Coreia do Sul - ponto de passagem entre Seul e Busan. Lá, vamos nos unir à produtora Jin Sol em busca de seu Dom Quixote.


Se você curtiu "A Inconveniente Loja de Conveniência", com certeza vai ficar encantado com "Meu Dom Quixote Coreano"! Além de trazer muito mais humor e aventura, a história trabalha com muita sensibilidade as relações humanas, tanto familiares quanto no campo da amizade.


Vai lá, arrume suas malas, coloca aquele calçado mais largo e te encontro na estação!


Jya, ne?! Annyeonghi gaseyo!


Kaká



 
 
 

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